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[Resenha] Pistas Submersas - Maria Adolfsson!

Título: Pistas Submersas

Autor: Maria Adolfsson

Editora: Faro Editorial


Resenha: Pistas Submersas é o primeiro volume da série Doggerland, da escritora sueca Maria Adolfsson e em todos teremos Karen Eiken Hornby como protagonista e investigadora dos casos. 

Doggerland é uma ilha um tanto curiosa, localizada ao norte da Escandinávia e até então era um lugar de paz. Todo o cenário muda quando, numa manhã, Karen recebe a notícia de um assassinato e a vítima é, nada mais, nada menos que a ex-mulher do seu chefe, Jounas Smeed - o homem em que ela teve a infeliz ideia de se envolver na noite anterior durante o Festival da Ostra, festa tradicional da região.

E como nada é tão ruim assim que não possa piorar, Karen é a principal encarregada na investigação do caso, cujo principal suspeito é o ex marido da vítima e que por sua vez, tem a própria investigadora como seu álibi, pois eles estavam juntos. E agora? Como provar a inocência de Jounas sem contar do envolvimento de ambos?

Com isso, nossa investigadora começa uma busca desenfreada por respostas e quanto mais profundo adentra, mais dúvidas surgem e ela percebe que a ilha e a própria vítima possuem muito mais segredos do que se possa imaginar.

A narrativa intercala entre presente e passado, onde é possível conhecer mais da história da ilha e de seus habitantes em um gancho que liga segredos que vão desde 1970 até os dias atuais.

A investigação se desenrola de forma lenta, mas em nada isso prejudica a leitura, muito pelo contrário, foi uma delícia conhecer em uma preciosa descrição e riqueza de detalhes a ambientação da história e a construção dos personagens.

A protagonista é maravilhosa e eu não vejo a hora de conhecer os próximos volumes da série. Karen é uma mulher forte, determinada e além de tudo intuitiva, pois mesmo com muitos indo contra as suas teorias, ela não arredou o pé da linha em que realmente acreditava.

O desfecho foi um soco no estômago e embora construamos algumas teorias que se emaranham às descobertas da protagonista, ainda assim é difícil imaginar – de antemão - um final daqueles e isso foi um dos pontos fortes do livro: a surpresa!

Maria Adolfsson criou uma história instigante, sinistra e envolvente... num livro que nos deixa ansiando pelo desfecho.

Livro recomendadíssimo!


Título: A Revolução dos Bichos

Autor: George Orwell

Editora: Companhia das Letras

Resenha: Aqui acompanharemos a trajetória dos bichos da Granja Solar, comandada pelo Sr Jones, um homem de temperamento difícil, que não se importa tanto com o bem estar dos animais, os explora e até os deixa passando fome.


Cansados desse tratamento, todos os animais, sob a liderança dos porcos - mais especificadamente o porco chefe, chamado de Velho Major – decidem se rebelar e começar uma revolução para tomar o poder da granja e estabelecer um sistema socialista, prezando a igualdade de todos, constituindo um ambiente onde todos pudessem viver sob as mesmas condições e receber o retorno do trabalho igualmente. Para isso, o Velho Major os convence, com seu discurso bem elaborado, de que os humanos são ruins e que eles não precisam ser governados por ninguém que não seja eles mesmos.

Após o falecimento do Major, os porcos continuam assumindo a liderança e uma batalha é declarada, tendo de início a expulsão do Sr. Jones da granja. Tudo parece estar indo naturalmente bem e dentro dos conformes, até que os porcos transformam os planos em uma ditadura opressora. O que era para ter sido um regime igualitário começa – disfarçadamente – mostrar uma faceta mais sombria, onde um manda e o resto é obrigado a obedecer e sem sequer perceber que suas opiniões não estão sendo levadas em consideração. E é assim a ditadura... silenciosa.

Os animais vão sendo encurralados pelas ideias do líder, que com o discurso de igualdade, torna tudo “igual”, mas ao seu modo, manipulando os demais a seguir sua linha de raciocínio e as suas ordens cada vez mais intensas e grotescas. E os animais chegam ao ponto de não saber mais se está bom agora, ou se estava melhor como era antes, deixando o futuro da granja totalmente incerto.

Assim, a história se desenvolve basicamente em cima dessas questões e de exaltar as características de vários personagens que contribuem e muito para que entendamos a analogia que há por trás de cada um deles que representam tão bem os arquétipos da antiga (ou nem tanto, né?) sociedade. Posso citar dois que, para mim, tiveram grande destaque: Napoleão, que era nitidamente a representação autoritária de Stalin. E ironicamente, Benjamin, o burro, que parece ser o único que enxerga além do seu umbigo e nota o que está acontecendo, mas não tem coragem de enfrentar ninguém, mostrando o quanto muita gente se comporta de forma passiva à diversas situações, se tornando – inevitavelmente - cúmplice e/ou conivente.

Livro curto, de linguagem simples e que em poucas páginas te obrigada a pensar e te faz refletir. Aponta com genialidade questões reais e de grande importância a nível social. Além de trazer mensagens claras sobre ganância, corrupção e disputa de poder, que são questões tão presentes quando o assunto é viver em sociedade.

Apontado – merecidamente – como um dos grandes clássicos da literatura, o livro traz uma crítica real sobre o regime socialista, tão bem representada pelos animais da granja. Além de nos mostrar com bastante nitidez uma analogia à política da época e o quanto o poder e corrupção podem caminhar lado a lado.

No mais... Leitura obrigatória.

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[Resenha] Invisível - Tarryn Fisher!

Título: Invisível

Autora: Tarryn Fisher

Editora: Faro Editorial

Resenha: Em “Invisível” conhecemos Margô, uma garota com uma bagagem problemática. Margô viveu por muito tempo vítima da insanidade da própria mãe, que depois de um tempo se entregou aos fracassos e a uma vida de ódio, de descaso, tornou-se uma viciada em remédios, começou a se prostituir, não saia mais de casa e ainda obrigava a menina a fazer tudo para ela - como se fosse uma escrava. Só para completar a lista, ainda desatou totalmente todos os laços afetivos com a filha – se é que em algum momento teve algum – se comportando como duas desconhecidas dentro da mesma casa.


Elas vivem em um bairro extremamente pobre e entregue às drogas. Um verdadeiro amontanhado de precariedade, vícios, descaso, perdição, erros, prostituição e muito sofrimento. Margô ainda precisa conviver com seus complexos de inferioridade, vive se sentindo incapaz de tudo e se condena o tempo inteiro por ser gorda e feia. Diante disso ela cresce vendo seus sonhos serem esvaídos como pó, numa casa em que nunca pôde chamar de lar e num bairro que é o reflexo do vazio.

Mas quando tudo parece perdido, ela começa a criar um laço com Judah, um cadeirante que mora perto da sua casa e a quem ela sempre observou de longe. E conforme mais eles conversam e se conhecem, a garota invisível dos sonhos perdidos vai conseguindo encontrar forças para resistir às injúrias do mundo.

Tudo se transforma quando num dia qualquer, surge a notícia do desaparecimento de uma garotinha de 7 anos, que ela tinha pouco contato, mas muito apreço. E é aí que a vida da nossa protagonista ganha uma adrenalina a mais. Cansada de esperar a polícia desvendar o caso e tendo a ajuda de Judah, eles resolvem investigar por conta própria.

E o que acontece a seguir é um conjunto de imensas loucuras e novidades que nem ela esperaria dela mesma. Cansada de tantas injustiças e de esperar que as coisas acontecessem, ela começa a resolver as situações a seu modo e a sensação que isso lhe traz é tão satisfatória e a faz se sentir tão justa que a garota entra em um caminho sem volta. Um caminho que a faz se questionar se ela é a mesma de antes ou se algum dia voltará a ser.

Margô segue com a ideia fixa de que mais ninguém irá sofrer enquanto ela estiver por perto e ninguém mais irá passar pelas coisas que ela passou. Isso também nos mostra o quanto ela cresceu quebrada por dentro e desejava fielmente que nenhum inocente se sentisse igual, resultando em perseguições obsessivas e desejos desenfreados de justiças - nem que pra isso precisasse ser pelas suas próprias mãos.

No entanto, o que isso lhe rendeu foi, além de uma nova personalidade, alguns apuros e momentos de quase morte, num livro profundo e que vai te deixar boquiaberto.

Eu admiro muito Tarryn, acho-a uma autora ousada e que não mede esforços em surpreender. Suas personagens são sempre cheias de facetas e todas essas nuances nos levam a explorar suas mentes de forma a conseguirmos entender até suas loucuras. Acho genial a forma e a facilidade que ela tem de nos fazer adentrar nos mais diversos cenários e vasculhar as mais diversas mentes com a mesma facilidade em que ela sabe explorar a mente humana e nos apresentar perfis que evidenciam a complexidade que é isso tudo e que chegamos a desacreditar que de fato possa existir - mexendo com nossos princípios e convicções ao ponto de nos tirar da zona de conforto.

Uma história impactante e visceral que nos mostra o lado sombrio de uma protagonista que nos revela a obscuridade da mente humana. Tarryn sabe dominar assuntos trágicos, intensos e que exploram e desafiam a insanidade humana de forma plausível.

Livro recomendadíssimo.


[Resenha] Uma casa no fundo de um lago - Josh Malerman!

Título: Uma casa no fundo de um lago

Autor: Josh Malerman

Editora: Intrínseca


Resenha: Narrado em terceira pessoa, o livro começa com um convite inusitado... Apaixonado por Amélia, James quer impressioná-la e no primeiro convite para sair, resolve convidá-la para algo diferente: passear de canoa em um lago! E para sua surpresa, ela aceita. E com a canoa emprestada do tio de James, o casal parte para o que seria o começo de uma grande aventura.

O lago é maravilhoso e o casal de apenas 17 anos se vê deslumbrando tudo. Até que percebem que o lago dá para um segundo lago, até então pouco visitado e tudo lá é tão majestoso quanto. Mas não acaba por aí, movidos pelo olhar curioso que inspeciona todo o local, acabam vendo um túnel, que não satisfeitos em inspecionar de longe, resolvem entrar para saber onde ele vai dar. E é lá que está: o terceiro e misterioso e principal lago da história.

Esse terceiro também é deserto, mas algo logo chama-lhes atenção: ele esconde algo fantástico, uma casa de dois andares. Sim, isso mesmo! Há uma casa totalmente submersa no terceiro lago e movidos pela curiosidade, um por vez, resolve mergulhar e explorar aquela preciosidade. E é então que descobrem que tudo que há lá embaixo é ainda mais sinistro do que a própria presença de uma casa no fundo de um lago em si. Dentro da casa, eles percebem que ela está toda mobiliada e tudo lá dentro parece desafiar a lógica que conhecemos, objetos que deveriam estar flutuando debaixo d’água estão dispostos em cima da mesa, livros que deveriam estar molhados, estão lindamente enfileirado nas estantes... e esses são só dois exemplos dos mistérios que a casa esconde.

O desenrolar não foge muito disso. Como é um livro curto, o que vamos ver é - de antemão - um por vez descer e explorar a casa, até que decidam descer mais bem equipados e descer os dois juntos. E lá embaixo descobrem além de muitas surpresas sobre a casa, a magia que é o primeiro amor e as primeiras vezes.

O final, como já é típico do autor, fica em aberto. Gosto das histórias de Josh porque fogem dos clichês, tanto o desenrolar, quanto os finais, embora esse aqui não tenha me envolvido tanto como Caixa de Pássaros. Foi uma narrativa forte que mesmo que bem descrita e elaborada, pouco convenceu e o horror psicológico - ingrediente clássico do autor - ficou em segundo plano... numa história mais próxima da fantasia que do suspense.

No mais, um bom livro para que quem quer ler algo bem rapidinho e explorar a imaginação. Esse ponto sim foi plausível.


[Resenha] Sem Saída - Taylor Adams!

Título: Sem Saída

Autor: Taylor Adams

Editora: Faro editorial


Resenha: Taylor nos apresenta Darby Thorne, uma jovem universitária que teve seus planos de Natal tristemente modificados quando fica sabendo repentinamente que sua mãe está com uma doença em fase terminal e prestes a ser submetida a uma cirurgia de urgência. Sem pensar duas vezes ela pega seu carro e parte às pressas para o hospital onde a mãe está - temendo que não a encontre mais com vida.

Como se já não fosse problema demais, ela teve que se deparar com uma nevasca que conforme avançava pela estrada coberta de gelo, tudo parecia piorar. Para completar, tudo parecia ter resolvido dar errado ao mesmo tempo: ela nota o celular com pouca bateria, sem sinal e o limpador do para-brisa quebra mais adiante.

Sem ter saída diante daquela nevasca, ela é obrigada a parar num Centro de Informações Turísticas onde lá dentro já se encontrava mais quatro pessoas, todas – aparentemente – ali presas pelo mesmo motivo que ela. São Ashley, Lars e os primos Ed e Sandi, que ficam sabendo por um rádio que ficarão presos ali por mais 8 ou 10 horas até que cheguem os limpa-neves.

Na tentativa de achar um sinal de celular, ela vai para o lado de fora e a cena que – sem querer – ela visualiza, mudará todo o curso da sua noite. Há uma criança presa e amordaçada dentro de um canil portátil, num furgão cinza e que, com toda certeza, pertence a algum dos desconhecidos que se encontram dentro do local.

Agora ela não consegue fechar os olhos para o que viu e fingir que nada está acontecendo e disposta a ajudar a garota, ela volta para dentro do local para tentar descobrir quem é o dono do veículo e buscar pelo menos um aliado. Para isso ela precisa de toda calma e inteligência do mundo, pois um passo mal dado, pode colocar tudo a perder, qualquer deslize pode ser o fim.

O desenrolar é eletrizante, Derby descobre com cada novo passo que dá, na busca do resgate da criança, que não se trata mais de somente libertar a garota, mas salvar a sua própria vida também.

De enredo extremamente interessante, curioso e de desenrolar eletrizante, todo o livro se resume a uma única noite, mais precisamente, a alguma horas e daí já podemos notar o quanto a trama rende muita aflição e surpresas. A narrativa é espetacular, tudo bem descrito e na íntegra, o que contribuiu para nos passar tudo de forma a parecer assustadoramente real!

Um suspense de – literalmente – tirar o fôlego. Em vários momentos me vi em choque. O autor descreve tudo tão bem que facilmente você consegue visualizar cada cena e sentir todo o terror psicológico por trás delas. De ritmo frenético, Sem Saída é um livro que nos apresenta os principais elementos que um bom suspense precisa para fisgar o leitor. E que fisgada! O ritmo da leitura se torna tão voraz na mesma medida em que tudo vai ferozmente acontecendo e em momento algum isso é perdido. Esplêndido!

Mais que recomendado!

[Resenha] Quando ela desaparecer - Victor Bonini!

Título: Quando ela desaparecer

Autor: Victor Bonini

Editora: Faro Editorial

Resenha: Francisca Silveira do Carmo, ou somente Kika, é uma garota de 16 anos que sumiu durante uma excursão escolar e já se encontra desaparecida há dois meses. Não há muitas pistas sobre o seu desaparecimento além de um colar deixado na mata, onde supostamente ela teria entrado.


Kika é de origem humilde, é órfã de pai e extremamente bonita, chamando atenção de todos por sua beleza notável, o que lhe rende uma aproximação muito maior com os garotos e desperta inveja nas garotas – o que também a torna vítima de bullying, se vendo obrigada a se isolar sempre. Há dois anos a menina passou por uma situação que a deixou à beira da morte e poucos acreditavam que ela sobreviveria. E agora, lutando para se recuperar do episódio anterior, surge mais esse problema: um misterioso desaparecimento e que ganhou a mídia nacional. Vários profissionais se envolveram nas investigações e a lista de suspeitos só cresce conforme as pistas vão surgindo. Poderia ser Kika mais uma vez uma sobrevivente? Há relação entre os dois episódios?

Em formato de livro-reportagem, que conta a história pela ótica jornalística, “Quando ela desaparecer” traz uma narrativa aos olhos de Sarah Meireles, uma profissional que não só acompanhou o desenrolar do caso, mas presenciou fatos importantes. Com capítulos intercalados entre presente e passado, vamos conhecendo através de depoimentos e relatos, mais da vida e comportamento da nossa protagonista e de todos os eventos que a rodeiam.

Ao passo que conexões vão sendo reveladas, segredos descobertos e o circo parece estar se fechando, a história ganha outros desdobramentos e alguns inocentes também passam a ser o alvo. Mas por quê?

O autor tem uma narrativa tão brilhante que de forma inteligentíssima consegue unir todos os elementos que deixam a leitura atrativa. De construção dinâmica, vemos a história de Kika se desdobrar através de formatos que ajudaram a enriquecer a história... fotos, manchetes de jornais, mensagens de textos & e-mails, flashbacks, mapas, tudo o que facilmente corroboram para melhor elucidar e nos arrebatar para dentro da história de forma eletrizante. Um livro movimentadíssimo que quando você acha que foi chegado o desfecho, segredos vem à tona causando uma reviravolta surpreendente, remexendo o quebra-cabeça que até então achávamos que estava praticamente formado.

Bonini nos presenteia com uma obra recheada de mistério e suspense. Ele vai construindo uma trama de forma a saber fisgar o leitor e obrigá-lo a continuar lendo. Finaliza os capítulos de forma que aguça nossa curiosidade, nos dando pistas do que vem a seguir e quando você se dá conta, já finalizou a leitura. Achei o desfecho estarrecedor e altamente imprevisível, nunca e nos meus maiores e melhores chutes, eu imaginaria algo como o que foi. Claramente vemos o quanto a mídia pode influenciar a opinião pública e o quanto existem decisões desacertadas por erros de pré-julgamentos. Um retrato assustador da nossa sociedade que nos faz refletir e pensar que foi uma ficção, mas poderia ser totalmente possível.

Bonini foi uma das gratas surpresas que eu tive esse ano.
Que orgulho tê-lo no time da nossa literatura nacional!
Livro recomendadíssimo!

[Resenha] A guerra que salvou a minha vida - Kimberly B. Bradley!

Título: A guerra que salvou a minha vida

Autora: Kimberly B. Bradley

Editora: Darkside Books


Resenha: Em “A guerra que salvou a minha vida” conheceremos a comovente história de Ada, uma criança que desde cedo foi obrigada a conhecer o lado cruel da vida. Ada e seu irmãozinho, Jamie vivem com a mãe em Londres em um lar precário e isento de qualquer tipo de afeto materno, tudo porque a sua mãe tem vergonha pela garotinha ter nascido com o que eles chamam de “pé torto”, fazendo da vida da menina um verdadeiro inferno, lembrando-a o quando ela é uma aberração, além de obrigá-la a lhe servir e ficar presa num armário úmido com baratas se ela ousasse falar ou fazer algo que não devia. Diante disso, a menina é obrigada a viver trancada no pequeno cômodo para que ninguém a veja e só tem a janela como distração - que é onde ela observa a rua e vai e vem das pessoas.

É 1939 e concomitante com a guerra que estava sendo declarada lá fora por Hitler, existia a guerra da Ada. A luta da menina que desde tão nova sofria preconceito e desprezo dentro da própria casa e que só tinha o irmão como a sua única fortaleza e motivo pra lutar.

Enquanto Londres era ameaçada ser bombardeada, as crianças eram evacuadas para o interior para serem rearranjadas em famílias que pudessem agregá-las e mantê-las seguras. Sabendo que sua mãe poderia não mandá-la junto com as outras crianças e temendo ficar longe do irmão, foi chegada a hora da pequena Ada enfrentar as duas guerras. A de Hitler e a dela.

Ada começa treinar para ficar em pé e dar passos curtos. E depois de muitos esforços e ousadia, a menina parte – sem sequer pedir permissão e sobrevivendo não só a dor física, mas psicológica – com o irmão, rumo ao que poderia ser sua liberdade.

No interior, essas crianças vão parar na casa de Susan, uma mulher que não estava preparada para recebê-las e não queria cuidar de ninguém. Mas conforme os dias passavam teve-se início uma relação de mão dupla... Ao passo que Susan ia superando o luto, a depressão, a solidão e se abrindo para um recomeço, as crianças também iam se encontrando - no novo lar elas tinham muito além de roupas quentinhas e limpas, comida e lazer... tinham amor fraternal.

Uma história cheia de personagens quebrados por dentro e que carregam histórias dolorosas, mas fortes e reais, num cenário mais doloroso ainda, que tomado por batalhas, disputas políticas, ganância, ambição e sede por poder que foi a Segunda Guerra Mundial, ainda resultava em soldados por toda parte, bombas, crianças evacuadas para lares provisórios e adultos assustados a cada esquina.

A inocência de Ada e Jamie são pontos fortes do livro, é lindo acompanhar o crescimento deles e o abrir de coração - que não é tão rápido -, principalmente falando da Ada que demora bastante para confiar em Susan e entender que agora ela é amada e bem cuidada. Porém, isso é totalmente justificável pela bagagem dolorosa que ela carrega consigo e por nunca ter conhecido de perto a bondade humana. Vê-los tentar superar suas limitações e lutar para se encaixar como qualquer criança, mesmo em meio à dor – que era palpável - e toda a carga de desprezo que elas carregam, foi plausível. Era algo peculiar e extraordinariamente cativante.

Uma história que mostra a desumanidade por trás da guerra, mas que também fala de amor e recomeço. Kinberly soube transformar uma premissa que aparentemente era simples, em algo fascinante.  Amo histórias ambientadas em conflitos e essa entra para o topo das favoritas. Achei uma cartada forte e bem pensada da autora colocar a narrativa em primeira pessoa por uma criança, o que deixou tudo ainda mais intenso e dramático, que vai além da carga pesada que já é, por si só, o evento traumático que foi a Segunda Guerra Mundial.

[Resenha] É assim que acaba - Colleen Hoover!

Título: É assim que acaba

Autora: Colleen Hoover

Editora: Galera Record


Resenha: Narrado em primeira pessoa, “É assim que acaba” vai nos apresentar Lily, que desde muito cedo foi obrigada a conviver num lar conturbado onde sua mãe sofria violência doméstica. A garota presenciou por muito tempo sua mãe sofrer todo tipo de violência por parte do seu pai - que ia de agressões psicológicas à físicas. Lily se revoltava muito quando esses fatos aconteciam porque nunca conseguiu entender por que sua mãe permitia aqueles abusos e insistia em uma relação tão dolorosa.

Quando a história contada no livro tem início, é justamente após a morte do seu pai, que era o prefeito da cidade e era visto por todos como um homem de bem - quando ela e sua mãe sabiam que não se tratava disso. No meio desse transtorno após a perda, ela conhece Ryle um neurocirurgião que na noite em que se cruzaram também estava enfrentando um drama e foram atraídos, um pelo outro, por suas dores. Um rapaz extremamente atrativo, mas com aversão a relacionamentos sérios.

O livro é intercalado por uma narrativa em tempo real e outra narrativa em que Lily nos apresenta através do seu diário, como era a vida dela enquanto o pai estava vivo, ao passo que também nos apresenta Atlas, um amor de infância.
Meses depois Lily e Ryle se reencontram pela primeira vez após aquela noite e percebem o quanto ainda sentem atração um pelo outro. Lily agora mora sozinha, é dona do seu próprio negócio e conforme a história se desenrola, vamos vendo a vontade que o casal tem de ficar juntos e vendo também todos os ‘contras’ que permeiam a relação.

Quando não se é mais possível evitar a atração, Ryle se entrega. E avassaladoramente o casal começa a viver uma grande história. Uma história de amor, emoção, muita química, mas como nem tudo são flores... também veio no pacote muita decepção e dor. E pouco a pouco vamos vendo que quanto mais o casal avança na relação vão surgindo fatos que começam a desestruturar o molde que eles tentaram criar. Isso tudo aliado ao aparecimento de Atlas que, surge sem esperar e dá uma bagunçada nas emoções da protagonista.

E daí o que acontece nos capítulos seguintes é tudo o que Lily nunca esperou que pudesse acontecer com ela. A vida é realmente uma caixinha de surpresas e garota vê sua vida sair dos eixos da noite para o dia. Foram novidades, impactos e mudanças demais para suportar e que a fez se questionar até que ponto ela se conhecia e tinha forças para tomar as decisões certas. O conflito que ela passou a enfrentar era algo que ela sempre julgou não poder existir numa relação, mas agora ela estava vivendo aquilo na própria pele e entendendo que há coisas e questões que não são tão simples de serem resolvidas. E agora ela entendia tudo!

E a gente entende também!
Colleen mostra através da personagem, o quanto é angustiante se sentir e estar enclausurada em uma situação onde há amor, mas precisa haver renúncia. Há o medo de ficar e o medo maior de partir. Um abismo imenso entre o querer se libertar e conseguir de fato. Uma luta diária. Uma luta interior que só quem vivencia pode mensurar.
A autora criou um universo tão real e tão particular para muitos, que não foi difícil entender várias das motivações da personagem. Entendemos sua dor, suas dúvidas, seus questionamentos, suas escolhas. Digo ‘particular para alguns’ porque infelizmente existe a parcela de mulheres que já tiveram – e tem - que ver e sentir de perto o sofrimento desse tipo de violência dentro das suas próprias casas e ainda são julgadas pela sociedade – o que não deixa de ser um dos motivos para muitas não terem coragem de denunciar.

É assim que acaba” é mais uma GRANDE história de Colleen Hoover. Mais uma grande história da autora corajosa e que de forma franca, fala de assuntos importantes e de forma a despertar empatia até em quem nunca passou por situação parecida. A autora construiu uma personagem tão esplendorosa, digna dos mais sinceros aplausos, que ficou fácil nos colocarmos no lugar dela e entender assim, a situação de milhares de mulheres que estão em posições semelhantes.

A decisão que a personagem tomou no final, embora dolorosa, foi necessária e intimamente corajosa. A história de Lily ainda vai inspirar muita gente. Aquele final PRECISA inspirar muita gente! Um livro necessário. Dá aula sobre empoderamento, empatia.

Esse é o nono livro que eu leio da autora e Colleen segue sendo uma das minhas autoras favoritas, não só por conseguir me arrebatar para dentro dos seus enredos, mas também por conseguir mostrar, através de cargas emocionais altíssimas e intensas, sempre as coisas certas a se fazer nas situações mais erradas.
De escrita inteligentíssima e muita habilidosa, ela consegue transformar premissas comuns em histórias incrivelmente bem contadas. Esse livro é mais do que um incentivo e um alerta, é um grito de liberdade. E que ele possa transformar a vida das muitas mulheres que tem esse grito preso na garganta seja lá por quanto tempo.

Um livro impactante sobre abuso e renúncias, mas também sobre amor, luta, escolhas! A Nota da Autora no final do livro me fez amá-la e admirá-la ainda mais. Saber que a história de Lily é tão particular sua e contribuiu para a estrutura do livro, foi mais que admirável, foi corajoso.

O mundo precisa conhecer esse livro, por favor, leiam!


[Resenha] Os Últimos Jovens da Terra - 4 Contra o Apocalipse - Max Brallier!

Título: Os Últimos Jovens da Terra - 4 Contra o Apocalipse

Autor: Max Brallier
Ilustrador: Douglas Holgate

Editora: Faro Editorial – Selo MilkShakespeare


Resenha: Nosso protagonista se chama Jack Sullivan e é, notavelmente, um simples garoto de 13 anos. Vive na cidade de Wakefield, mas já percorreu vários lugares, pois é órfão e infelizmente vive passando por vários lares adotivos... Até que finalmente consegue se fixar em um lar, o da família Robinson, que mesmo não fazendo tanto questão em tê-lo por perto, é lá onde tudo começa (ou termina).

Wakefield e o mundo inteiro está uma loucura, tudo está de cabeça para baixo há um pouco mais de 40 dias e o garoto se vê sozinho no Apocalipse dos Monstros, porque até os Robinson fugiram sem ele. Com o apocalipse, a cidade esta quase vazia, muito gente fugiu, outros morreram e o que restou foram monstros e zumbis para enfrentar! Mas nosso protagonista não se dá por vencido e encontra nesse horror todo, uma forma de ser um herói e mostrar seu potencial, criando até desafios e traçando metas para chegar à sua vitória.


Decidido a não enfrentar tudo sozinho, ele tenta encontrar seu melhor amigo, Quint, que juntos - e sem esperar -, encontram também com Dirk, o valentão da escola (mas que depois baixa a guarda e se une aos garotos) e esse trio embarca numa super aventura para salvar June, sua crush e a que ele garante ainda estar viva. No caminho vão encontrando vários obstáculos, mas também encontram formas de driblar todos eles e ao passo que correm os mais terríveis riscos, também se divertem. Afinal, o fim do mundo é melhor com os amigos.


O desenrolar é bem movimentado e dinâmico. Com uma trama repleta de aventuras, o autor conseguiu criar cenários fantásticos - mesmo que ilustrando o “horror” do fim do mundo -, diálogos divertidos, batalhas inusitadas, criaturas enormes, zumbis assustadores e jovens corajosos - que facilmente cativa o leitor, numa escrita fluida e muito bem humorada.

Mesmo sabendo que tem continuação, achei que o final em nada ficou a desejar, ele termina de forma bem bacana e ainda assim consegue deixar no leitor a expectativa de querer saber como vai continuar.
 

O livro é o primeiro lançamento da Faro Editorial com o novo selo “Milk+Shakespeare” voltado para o público mais jovem e a edição - como já era de se esperar – está pra ninguém colocar defeito, a Faro mais uma vez caprichou... E com ilustrações de Douglas Holgate, que complementam o enredo, o livro se tornou ainda mais atrativo. 

Para ficar mais legal ainda, o livro foi adaptado para Netflix, que já disponibilizou o primeira parte. Então se você é fã de adaptações de livros, corre pra conferir.

No mais... Fica aí a recomendação de um livro divertido e mesmo sendo voltado para o público jovem, tem uma proposta que agrada todas as idades.

[Resenha] A Devolvida - Donatella Di Pietrantonio!

Título: A Devolvida

Autora: Donatella Di Pietrantonio

Editora: Faro Editorial

ResenhaÉ 1975 e nossa protagonista é uma criança de apenas 13 anos. Narrado em primeira pessoa e sem conhecer seu nome, vamos nos familiarizando com a história da menina que, sem explicação alguma, um certo dia, é devolvida para os seus pais biológicos depois de ter sido por tanto tempo criada, sob ótimas condições, por parentes da família - os quais ela sempre achou que fossem seus verdadeiros pais.


Na casa dos seus pais adotivos a menina tinha - além de uma vida linda e confortável perto da praia e com todas as regalias que uma criança pode ter - amor, atenção, educação de qualidade, lazer. Mas tudo isso se transforma em outro cenário, de repente, quando se vê sendo devolvida – sem sequer poder se despedir daqueles em que sempre acreditou ser sua verdadeira família - aos seus pais biológicos e sem ao menos entender o que estaria motivando tudo aquilo e de forma tão brusca. A pobre criança que em um dia tinha tudo, no outro passou a não ter nada, num lar que faltava - literalmente - tudo.
No seu novo lar, ela conhece de perto a pobreza extrema, num ambiente precário, de família numerosa e onde todos pareciam desprovidos de afeto. Nitidamente vemos como o sofrimento e a luta os tornou insensíveis diante de tudo, numa família onde não existia diálogo, trocas e sequer uma relação de irmãos, tampouco de pais e filhos. A única que, logo de início, mostra que se importa com a recém-chegada é a sua irmã, Adriana.

Diante de tudo isso, ela não se sente em casa, não se sente parte daquela família e ninguém parece se importar muito em tentar fazê-la se sentir inserida. A única coisa que a fazia ter forças para encarar a nova situação era a esperança acesa de que seus pais voltariam para lhe buscar, uma vez que ela presenciou alguns momentos indispostos da sua mãe adotiva e deduziu que ela estivesse doente e provavelmente não queria lhe preocupar. Então ela sobrevivia naquele lar em que se sentia como uma intrusa pensando que quando sua mãe melhorasse, ela voltaria para sua casa.

No desenrolar da história vamos vendo o peso que tudo aquilo causa à protagonista que em todo lugar que vai é conhecida como “A devolvida” e devido a isso, como se já não fosse o bastante, ainda passa a sofrer bullying na escola. Decepcionada, incrédula e confusa, ela se vê sendo obrigada a crescer para além da idade que tinha e com toda rejeição, ordem e ausência de vínculo, naquela dura realidade.

Dentro do que é possível, ela vai tentando se adaptar... e com a ajuda da irmã, vai encontrando, mesmo com todo sufoco, se encaixar naquela nova condição e conquistar um espaço no seu novo lar. Mesmo sem aceitar ou até mesmo entender aquela reviravolta, ela não deixa de lembrar e sentir saudade da sua antiga vida e é nítido o quanto seu coração não sossega e vive destroçado dia após dia.

Chegando pertinho do final do livro conhecemos o que motivou tudo aquilo e seu coração é despedaçado ainda mais. Vemos o quanto foi injusto, cruel e insensível tudo que aconteceu e a situação a qual foi submetida, aliada ao fardo que ela vai ter que carregar pro resto da vida, numa realidade triste e egoísta.

Também podemos ver o quanto a vida é uma caixinha de surpresas e mesmo não sendo sempre surpresas tão boas, traz lições valiosas. Encontrar sentido na vida em meio à dor foi uma característica muito forte da personagem que mesmo nos apresentando uma história difícil de digerir, estava carregada de esperança e de sentimentos, num livro de carga emocional extremamente intensa.

Esse foi o meu primeiro contato com a escrita da autora e me agradou totalmente. Escrita fluída e emocionante. A narrativa é empolgante, desenrolada e mesmo sendo atribuída a uma realidade dura de encarar, é inspiradora.

A Devolvida é um livro que tem muito a nos ensinar sobre força, amadurecimento, busca de identidade. Não ficamos sabendo muito sobre o que aconteceu depois daquilo tudo, mas a proposta do livro é resumida a nos apresentar o impacto que surgiu na vida da personagem ao ser devolvida para seus pais biológicos e a adaptação na nova casa... E isso a autora cumpriu com maestria e em nada decepciona! O final foi extremamente plausível, Adriana foi uma personagem que merece total destaque por toda sua desenvoltura com tão pouca idade e por tudo que agregou na vida da nossa protagonista e não esperava menos de um final em que a autora aproveitou bastante disso e valorizou a personagem, numa cena – de total irmandade - que não vai sair da minha cabeça nunca mais.

Recomendadíssimo!

Uma Estranha em Casa - Shari Lapena!

Título: Uma estranha em casa

Autora: Shari Lapena

Editora: Record

Resenha: Aqui conheceremos Karen Krupp, a protagonista que é uma dona de casa exemplar, ótima esposa, amiga e dotada das melhores qualidades. Sua vida é posta de cabeça para baixo quando vai parar num hospital depois de ter sofrido um acidente ao dirigir em alta velocidade, colidindo num poste... e o mais intrigante: em uma zona perigosa da cidade!
Mas o que ela estava fazendo lá e o que a fez dirigir tão rápido? Estava fugindo de algo?


Sem saber o quê e como aconteceu, Karen acorda num hospital, sem memória. Tom, seu marido, diz que ao voltar para casa, o carro da esposa não estava na garagem, a porta estava destrancada e a cozinha lhe apresentava o preparo de um jantar que, obviamente, não deu tempo finalizar. Ao vasculhar a casa e não a encontrando, além de não entender o que possa ter acontecido para que sua mulher saísse de casa tão às pressas e sem levar os documentos - sequer o celular - ele resolve ligar para a polícia.
Rapidamente a polícia bate a sua porta. Mas não pelo seu chamado, eles já estavam ali para comunicar-lhe do acidente. No hospital, Karen insiste em não se lembrar do que aconteceu ou do porquê de ter estado lá. De acordo às informações do médico, isso é uma consequência normal para uma concussão como a dela.

Em paralelo a isso, há outra investigação aberta. Um assassinato foi descoberto nas proximidades de onde Karen fora encontrada. Um homem de meia idade fora encontrado com 3 tiros e a polícia especula um assalto seguido de morte... O que instiga a polícia a se questionar e querer investigar mais a fundo se o acidente da moça que se encontra no hospital tem a ver com o assassinato em questão. E se há... o que motivou.

Depois que Karen recebe alta, recebe em casa a visita do detetive Rasbach e descobre que o problema que está caindo sobre si é mais do que uma infração de trânsito. Na cena do assassinato foi descoberto um par de luvas rosas que lhe pertence e vestígios do seu carro no estacionamento. Mas a moça não sabe explicar absolutamente nada.

Tom começa a se sentir intrigado. Por que há vestígios da Karen no local onde houve um assassinato? Isso o deixa frustrado e se perguntando se conhece mesmo a esposa. Assim, imediatamente lembra que Karen sempre fora muito reservada quando o assunto era falar sobre si e o seu passado. Então o que sua mulher pode estar escondendo?

O livro se desenrola entre alguns pontos de vista. Temos o ponto de vista da própria Karen que desesperada, não sabe como resolver e se livrar de uma situação que ela insiste em dizer não lembrar. De Tom que começa viver um dilema sem sequer conseguir se decidir em quem acreditar. Temos o ponto de vista do detetive no calor das investigações - que quanto mais se avançam, mais ele acredita que os dois acontecimentos tem relação, e de Brigid, vizinha do casal e melhor amiga de Karen que por ser tão obcecada em observar a vida deles, presenciou tudo o que aconteceu e sem esperar, estava tão envolvida no acontecido, tão quanto a própria Karen.

Diante disso tudo, Karen é culpada ou testemunha? Com o desenrolar dos fatos e conforme a investigação avança, vamos descobrindo novas pistas que nos levam a vislumbrar o que de fato aconteceu na noite de 13 de agosto, assim como também novas descobertas vão surgindo sobre o passado da protagonista, que começamos a nos questionar quem de fato é o vilão e quem é o protagonista na história!

Esse foi o meu segundo contato com a Shari, li ‘O casal que mora ao lado’ e foi uma experiência tão boa que o livro me deixou um convite para que eu lesse suas próximas histórias. ‘Uma estranha em casa’ veio para reafirmar a ideia que eu tive lá em ‘O casal que mora ao lado’: Shari é uma das grandes escritoras do gênero.

Sua grande e principal característica é, além das grandes reviravoltas, nos confundir em relação aos seus protagonistas. Suas tramas são recheadas de tantas descobertas e surpresas que seus personagens e ambientações nos deixam sem entender se a pessoa que estamos torcendo é o vilão ou o mocinho - em desdobramentos que sempre caminham para nos mostrar que ninguém é inocente demais, ou culpado o bastante.

Sua escrita é viciante, flui facilmente e ela sabe desenvolver a trama perfeitamente dentro do contexto, achei que em nada ficou devendo. Um desfecho totalmente inesperado - admiro quem conseguiu juntar todas as peças, porque eu cumpri mais um papel de trouxa -, o que foi um dos grandes motivos para eu ter gostado tanto do livro. Vi muitas resenhas negativas sobre ele, mas para mim, Shari simplesmente cumpriu tudo que prometeu!

Recomendadíssimo!

[Resenha] Um Corpo na Biblioteca - Agatha Christie!

Título: Um Corpo na Biblioteca

Autora: Agatha Christie

Editora: Harper Collins


Resenha: Tudo tem início quando um corpo é encontrado na biblioteca dos Bantry, a moça é uma completa desconhecida. Chocados, o casal chama as autoridades para investigar o caso. A sra Bantry, afoita, também decide convocar sua amiga - investigadora amadora da região -, Miss Marple, julgando ser a melhor pessoa para solucionar o caso, uma vez que nada escapa aos olhos da mulher que tem uma forma bem peculiar de analisar os fatos. E é a partir dessa premissa que todo o desenrolar para desvendar o crime tem início.

Conforme a investigação avança, uma lista de suspeitos é criada, que vão desde os próprios Bantry à família de onde a vítima herdaria uma boa quantia em dinheiro e assim um quebra-cabeça começa a ser montado. De um lado os detetives a todo vapor fazendo interrogatórios e tentando encontrar pistas. Do outro, Miss Marple avaliando a situação com outros olhos e assim mostrando para grandes profissionais que desvendar um mistério está muito além do que os suspeitos têm a dizer ou do que a região e a cena do crime sugerem, mas sim, que envolve um olhar mais atento aos interesses e comportamentos das pessoas envolvidas.

O desfecho foi um tanto previsível, não exatamente sobre como aconteceu, mas sobre quem estava por trás. Achei um amontoado de suspeitos e de interrogatórios desnecessários e confusos. Se a ideia era nos despistar, acabou sendo cansativo e em nada acrescentou.

Esse foi o meu primeiro contato com a escrita de Agatha, confesso que considerando toda fama que ela tem e do título de Rainha do Crime, eu esperava um pouquinho mais. Talvez por ler tantos suspenses atuais e já ser adepta à livros policiais, eu tenha ido com muita sede ao pote também rs Mas incontestavelmente senti falta de uma história mais movimentada, com mais adrenalina. De início aparenta ser uma trama e tanto, mas no decorrer da leitura comecei a sentir falta de alguns ingredientes que, para mim, são essenciais para esse tipo de temática.

Achei a trama extremamente engenhosa, é notável a habilidade que ela tem para construir os personagens, achei que só pecou mesmo na emoção, faltou um desenrolar mais envolvente. Talvez eu tenha começado por um livro mais morno também, uma vez que, fazendo uma pesquisa na internet, eu vi que ele pouco se encaixa na opinião do público para os melhores livros da autora. Eu esperava mais, muito mais, mas ainda assim, isso não ameaça a vontade que eu tenho de conhecer melhor a autora e eu darei sim, em breve, outra oportunidade para ela.

Se alguém gostar muito das suas histórias, inclusive, aceito sugestões.


[Resenha] Meu Lado Serial Killer - Uma Antologia de Ceiça Carvalho!

Titulo: Meu Lado Serial Killer

Autores: Adriane Saltli; Alexandra Lazari; Artur Laizo; Christian Fonseca; Debora MM; Debrittus; Eduardo Silva Francisco; Elza Helena; Francisco José Pinheiro de Souza; Humberto Lima; John K; Julius Caesar; Márcia Pavanello Pires; Mariani Balland Christóvão; Nanda Scarllat; Natália Lopes; Onivid Silva; Paz Guerreiro; Renato Neres; Tamar Facchinetti; Vi Portalli; Vinicius Ribeiro; Vitor Machado; Wellington L. Barbosa Jr; Willianice Soares Maia.

Editora: Rico Editora

Sinopse: São seres humanos loucos ou cruéis?
Serial killer é a denominação de uma pessoa criminosa com perfil psicopatológico que comete assassinatos com uma certa frequência, seguindo o modus operandi, e não raramente, deixando sua “assinatura”. Boa parte destes criminosos tem um bom perfil social: respeitáveis, bem-sucedidos, aparentemente afáveis. Alguns foram descobertos e presos pelos seus crimes. E muitos ainda estão camuflados na sociedade. Nesta antologia os autores irão discorrer seus contos a partir de histórias reais de Serial Killers, levando como base o modus operandi 
(por: Fernando Mello).


Resenha: "Meu Lado Serial Killer" é uma antologia promovida pela campanha 'Eu leio Brasil', em parceria com a Rico Editora. A Antologia é constituída por contos cuja narrativa aborda crimes praticados por Serial Killer e tem a organização de Ceiça Carvalho.

Mas o que é um Serial Killer?
Como o nome já sugere, é um Assassino em Série, ou seja, é um tipo de criminoso com desvio psicológico que comete vários assassinatos com um determinado intervalo de tempo durante os homicídios, podendo ser dias, meses, anos... e geralmente seguindo um modus operandi, que significa ‘modo de operação’, logo seguem o mesmo tipo de assassinato em crimes da mesma espécie, em outras palavras, executam suas vítimas seguindo o mesmo padrão. Em muitos casos, eles deixam sua própria assinatura, o que foi possível ver em alguns contos desse livro.

Composto necessariamente por 26 contos, o livro vai nos trazer, nos mais variados contextos, esses assassinos em série na ativa, nos apresentando os mais diversos perfis onde é possível ver e - assustadoramente - perceber o quanto eles podem estar em toda parte, camuflados na sociedade na pele do bom moço de família, do açougueiro, da terapeuta, do humorista, do pintor, do policial e por aí vai...

Muitas vezes apresentam comportamento satisfatório, são admirados por algo e é um exemplo em sociedade - quando intimamente são terrivelmente perturbados. Em muitos contos tivemos até uma abordagem psicológica das motivações que levavam essas pessoas a cometer esses crimes brutais. Os autores conseguiram traçar perfeitamente o perfil de um assassino em série, mostrando a necessidade que eles tem de possuir o controle sobre suas vítimas, tornando-as submissas e em uma posição onde se encontram encurraladas diante de quem tem plenamente o controle de uma situação que foi meticulosamente bem arquitetada.

Tortura, situações de humilhação, estrangulamento, fúria e sexo abusivo são só alguns elementos de um livro que vai te fazer temer a aproximação até da pessoa - aparentemente - mais perfeita do mundo e preparar melhor nossos olhos a estar atentos a tudo que está ao nosso redor. É um livro pesado, mas que ao mesmo tempo nos deixa com aquela sensação de alerta e cientes de que tem muito louco à solta, matando cruelmente muita gente e muitas vezes pelos motivos mais banais do mundo. Um ponto bem bacana do livro foi que pudemos ver a mulher como uma assassina também. Estamos tão acostumados a achar que só o homem comete esse tipo de atrocidade que quando vemos uma mulher na pele de uma assassina em série, é difícil acreditar que consigam ser tão cruéis quanto. Renato Neres trouxe um desses contos, o conto ‘Crime da Calcinha’, que eu achei genial e - infelizmente - totalmente possível.

É presumível - o que já é evidente - gostar mais de uns contos que outros. A maioria eu finalizei com satisfação em ter lido, acompanhado da expressão ‘caramba, que criativo’. A seleção para a antologia no geral ficou incrível e foi uma grata surpresa ver tanta gente bacana, produzindo um conteúdo mais bacana ainda. Recomendo!

[Resenha] O Amor nas 4 Estações - Victor Degasperi!

Título: O Amor nas 4 Estações

Autor: Victor Degasperi

Editora: Faro Editorial

Sinopse: O amor nas 4 estações é uma experiência do sentir. Experimentar a vida em sua essência, valorizar cada momento, cada evento, cada cair de chuva, farfalhar de árvores. Sentir a vida, a alma, o infinito... tudo parece utópico e lúdico demais? Mas é um desafio diário de viver cada momento de verdade e com intensidade, e depois disso, tudo passa a valer a pena! Um livro de crônicas sobre a vida e suas nuances, permeando as quatro estações do ano. Mais do que celebrar o amor, o autor nos desafia a viver um ano inteiro prestando atenção aos detalhes diários que tornam a nossa vida uma grande aventura, e que muitas vezes, deixamos passar. Victor aceitou esse desafio, e durante um ano viu a vida com os olhos de quem quer achar beleza em tudo, e isso mudou a forma como ele enxergou o mundo. E agora ele faz um convite para você viver a própria vida com intensidade, olhar o amor de outra maneira, de fazer uma releitura do nosso coração. Sua proposta é de fazer uma leitura do nosso próprio coração. Este é um convite para viver, em profundidade, as nossas próprias estações. “Quando a felicidade diz que não há nada que você poderia fazer a não ser ir, o coração já pulou. Os grandes momentos das nossas vidas partem de mergulhos corajosos.”


Resenha: “O amor nas 4 estações” é um livro de Victor Degasperi e reúne inúmeras crônicas que são fruto da própria experiência do autor ao longo de um ano, narrando com intensidade todas as percepções, experiências, amores, sutilezas e encantos durante cada uma das quatro estações do ano - que até então nunca havíamos notado que tem tanto a nos ensinar.

"Porque não podemos deixar que aquilo que nos faz o coração arrepiar não seja vivido por qualquer medo de não acertar. Nós sentimos para ser muito."

"Voltar pra trás, muitas vezes, é mais perigoso do que o risco de ir. Os grandes momentos das nossas vidas partem de mergulhos corajosos"

Logo, ele é dividido em quatro partes e cada época é recheada de textos característicos de suas histórias, observâncias e descobertas à cada estação e embora cada parte contenha suas particularidades e estejam dispostas de forma independente, ele consegue através desse compilado, criar um link entre cada virar de estação que facilmente poderíamos sentir – mesmo sem que ele anunciasse - quando uma chegava ao fim, além de nos preparar para a próxima.


O livro além de nos apresentar textos repletos de amor, declarações, inspirações e saudades, veremos grandes e belas lições em passagens que facilmente você se vê no lugar do autor, se identificando e visualizando o que o seu coração estava vendo e sentindo ao escrever. Suas páginas nos faz viajar por nossas próprias lembranças e pensar em várias pessoas a que seus textos poderiam ser atribuídos - num livro sobre verdadeiros valores, se permitir, extravasar.

"E, assim com a paz nos nossos sentidos de dentro, talvez estrelas minhas e tuas possam formar um céu só nosso... A primavera está linda."

O autor tem uma escrita deliciosa (que é um ponto marcante desse livro) e ao abrir seu coração pudemos perceber o quanto sua alma é singela. Victor nos permitiu através de cada palavra escrita, que conheçamos o seu íntimo e aprendamos a valorizar a vida e as relações, apreciando o simples fato de existir, afinal é como ele próprio já nos confessa: A vida é muito maior e mais valiosa nos detalhes.

Livro recomendadíssimo!

[Resenha] O Lado Obscuro - Tarryn Fisher!

Título: O Lado Obscuro

Autora: Tarryn Fisher

Editora: Faro Editorial

Resenha: O Lado Obscuro nos apresenta Senna Richards. Nossa protagonista é uma escritora de prestígio e famosa por seus best-sellers. Sua vida nunca foi um mar de rosas e sente-se uma mulher solitária onde encontra refúgio no seu escritório dedicando-se aos seus livros... mas no dia do seu aniversário, algo surreal acontece! Senna acorda em um local totalmente estranho. É uma casa no meio do nada e em meio a uma grande nevasca. O cômodo onde ela está não tem janelas e como saída só há um alçapão embaixo do tapete é aí que a sua ficha cai: ela foi sequestrada e não faz ideia de onde está.


Buscando uma forma de sair dali e entender melhor como tudo aquilo aconteceu, ela abre essa porta no chão e vai explorar o ambiente. E sem sequer conseguir pensar quem poderia cometer tal atrocidade, ela adentra os outros cômodos da casa a procura de respostas - que conforme vai explorando o local, mais espantada fica. Ao chegar às janelas percebe que lá fora não há sinal de absolutamente nada que não seja neve. É quando nessa busca por algum sinal que comprove que ela está mesmo sozinha na casa, ela encontra em um dos quartos um homem amarrado à uma cama. É Isaac! Se já era estranho encontrar mais uma alma vivente dentro daquele lugar, constatar que a pessoa se tratava de alguém que ela já conhecia – dos dramas do seu passado - tornou tudo ainda mais enigmático.

Senna sempre foi uma mulher que tem dificuldade em confiar nas pessoas e devido a essa resistência – consequência de marcas duras da sua trajetória -, sempre procurou manter todos longe, sua barreira emocional a faz machucar antes que seja machucada. Isaac apareceu em sua vida em um desses momentos sofridos e um elo foi criado entre os dois, mesmo com toda aversão dela. Por sua vez, Isaac sempre foi para ela o tipo de pessoa que não oferecia ajuda, ajudava. Não perguntava se podia fazer algo por ela, fazia. Mas por escolha dela mesma, o afastamento entre eles, mais cedo ou mais tarde, aconteceu. Agora depois de algum tempo estavam ali, trancafiados no meio da neve, sem saber como foram parar lá e sem entender o porquê de ter sido justamente com eles.

Quem os colocou lá? Como conseguiram? Por quais motivos? Eles iriam sair com vida ou os colocaram ali para morrer?

Após libertar Isaac e procurarem instrumentos para uma possível defesa caso o sequestrador aparecesse, eles continuam explorando o cativeiro até se certificarem que o raptor pensou em tudo! Não havia qualquer chance de saída. Além de ter se preocupado em abastecer o local com bastante lenha para lareira, garantiu energia elétrica, estoque de alimentos, roupas de frio e água. Isso os deixou mais assustados porque o estoque sugeria mantê-los abastecidos por muito tempo, o que os fez se questionar há quanto tempo o raptor estaria pensando em deixá-los ali.

O livro é dividido em três partes e em uma dessas, a narrativa se volta para o passado para que entendamos melhor o vínculo entre os personagens. Os outros, nos mostra de forma dura, a luta dos personagens para sobreviver num lugar daqueles. Nos mostra melhor como tudo foi meticulosamente arquitetado pelo raptor, num jogo da vida real, onde eles tinham que entender o porquê de cada detalhe moldado naquela casa e que muito dizia sobre a relação dos dois e principalmente a história de vida dela. Eram enigmas que ao serem descobertos garantiriam a liberdade deles.

Conforme o tempo foi passando – meses, para ser mais precisa – os suprimentos foram acabando e a situação foi ficando cada vez mais difícil, pois além de lutar contra os estresses diários, agora ainda haveriam de lidar com situações como fome, frio, doença... e o pior: a perda da esperança de um dia sair vivo dali.

Senna tem alguns comportamentos que analisados tanto no passado, quanto no presente, não nos faz – de antemão - torcer por ela, é o tipo de personagem que não se conecta muito com o leitor. Mas no final, quando você de fato entende que seus comportamentos são justificáveis, a gente abre um pouco o coração e até se comove. A quantidade pequena de personagens não nos faz levantar muitas suspeitas, você acaba suspeitando de uma ou duas pessoas e, no entanto, não é nem uma, nem outra. Achei uma cartada de mestre da autora.

O final do livro é destruidor. Você fica querendo tirar Senna do livro e abraçar. Sua dor se torna palpável e é impossível que a sua história não nos marque de forma densa.

O Lado Obscuro é um livro que vai muito além de uma história sobre dois personagens presos em uma casa no meio do nada, ela se estende para além daquelas paredes que guardam a dor de uma personagem quebrada por dentro e de um personagem que caiu como um anjo em sua vida. Ele que sempre se salvou, para salvar. Ela, que mal sabia que precisava dele para continuar vivendo. Eram almas gêmeas e mal se davam conta disso.
Afinal é como a autora deixou bem claro: a diferença entre o grande amor da sua vida e sua alma gêmea é que um você escolhe e o outro não.

Livro Recomendadíssimo!